Meus três plágios...

Eduardo Escalante


Que é plágio?
Basicamente o fato de tomar a autoria de uma obra como sendo própria. Segundo o Dicionário Aurélio, plagiar é... "Assinar ou apresentar como seu (obra artística ou científica de outrem)."
Em termos de música, torna-se às vezes difícil conceituar o plágio.
Qual a extensão de um trecho musical para se considerar apropriação indébita? No mínimo uma frase musical?
E quanto à apropriação de um trecho característico? Chamaremos como?
Exemplo: se usarmos as oito primeiras notas da Quinta Sinfonia de Beethoven como nossas (ta, ta, ta, taaaa.... ta, ta, ta taaaa.....), qual seria o teor do delito?

Poderíamos ir longe. Em outra ocasião o faremos. Prometemos.


Mas hoje vou falar dos meus três históricos plágios.
O primeiro ocorreu nos idos de 1974.
Estava eu escrevendo meu Choro nº1. Tendo completado o primeiro tema, estava tentando passar para o segundo, com alguma hesitação.
Morava então no gostoso bairro da Lapa, SP. Meu estúdio tinha um janelão ao lado de uma bela árvore onde, não raro, os pássaros se demoravam para ouvir o que estava eu tocando ao piano.
Sim, os pássaros foram a minha primeira platéia: às vezes deparava-me com a presença de vários; um ao lado do outro.
Mas não foi apenas isso.
Naquele preciso momento, um ouvinte acomodou-se num dos galhos e, pressentindo que estava eu à procura de um tema, apresentou-me o seu.
- É isso!.. Eu transcrevi o canto ditado pela ave singela Foi meu primeiro plágio.

Dezesseis anos passaram.
Nos primórdios de 1990, a convite do Mto. Eleazar de Carvalho, terminara de esboçar a minha Primeira Sinfonia, que iria reger, à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, no Festival de Música Brasileira Contemporânea.
Aproveitei o período de férias (janeiro) para orquestrar a obra já totalmente rascunhada. Fui para o Guarujá, onde fiquei só, com meus papéis, minha anotações, meu entusiasmo pelo trabalho.
Trabalhava dia e noite, descansava quando sentia vontade de fazê-lo, comia quando sentia vontade de comer, descia à praia quando tinha vontade de renovar-me.
Foi nessa ocasião que os cordões carnavalescos se preparavam para os alegres desfiles Passando pelos turistas, ao som de seus instrumentos de percussão, pediam alguns trocados para poder completar os apetrechos que faltavam (roupas, instrumental). Casualmente estava começando a orquestrar, também aqui, o segundo tema.
Desci um pouco para usufruir da canícula praiana, quando pareceu um desses cordões.
O ritmo era arrebatador. Agradou-me.
Sem pensar, comecei assobiar meu tema seguindo o ritmo da batucada. Quando me dei conta, percebi que ele se encaixava perfeitamente na minha música.
Não hesitei: alisei um pequeno espaço na areia e comecei a anotar o ritmo de cada um dos instrumentos. Caixa, chocalho, pandeiro, surdo. Decorei bem a parte de cada um. Subi rapidamente ao apartamento e derramei generosamente no papel.
E este foi meu segundo plágio. Não de pássaro, mas de gente.

Passaram-se emtão mais treze anos.
E mais uma vez estava eu na praia de Guarujá.
Coisa curiosa: há um elo de conexão entre cada um destes fatos...
Cada vez mais, a citada praia é invadida por duplas de nordestinos repentistas. Eles cantam, massageiam o ego dos turistas e arrancam algum dinheiro para seu sustento. Curiosamente um violeiro, não em dupla, mas desacompanhado, passou por mim e abaixou-se bem atrás do meu chapéu-de-sol a fim de improvisar alguns versos para uma familia que por ali estava.
Comecei a prestar atenção à cantoria. Era uma embolada mineira. A música, linda. E os versos, de improviso, muito engraçados.
O cantador ganhou alguns trocados dos ouvintes e desapareceu no meio da turba aboletada pelas areias quentes.
Mais uma vez subi para o apartamento e registrei o tema musical.
Não consegui saber quem era o cantador; ele não mais apareceu por lá.
Sim, pensei: ele veio para ditar sua cantoria, como o fez o pássaro lapeano, ao pé do meu ouvido. Literalmente ao pé do meu ouvido.
Mal ele sabia que estava sendo registado e seria plagiado...
Plagiado?
Não: o violeiro anônimo forneceu o tema para as minhas Variações sobre um Tema Anônimo Popular.
É uma homenagem a esses homens de talento e sensibilidade que criam espontaneamente a sua arte sem reivindicar o reconhecimento de ninguém.
São eles os grande esteios da nossa nacionalidade; os portadores da nossa rica cultura popular.

Valeu a pena...

Alphaville, 3 de maio de 2003 - Dia da Santa Cruz e da sua festa na
Aldeia de Carapicuíba, SP.


 


Anedotário - Anuncie no Correio Musical - Banco de músicas - Cadastre-se - Classificados
Compositores e arranjadores - Curso on line - Edições anteriores - Editorial -
-Galeria fotográfica - Interpretes A -Z -
Loja Musical - Megafone - Músicos A - Z -
Notícias - Quem somos... - Sala de estudo