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Mas hoje vou falar dos meus três históricos plágios.
O primeiro ocorreu nos idos de 1974.
Estava eu escrevendo meu Choro nº1.
Tendo completado o primeiro tema, estava tentando passar para
o segundo, com alguma hesitação.
Morava então no gostoso bairro da Lapa, SP. Meu estúdio tinha um janelão
ao lado de uma bela árvore onde, não raro, os pássaros se demoravam
para ouvir o que estava eu tocando ao piano.
Sim, os pássaros foram a minha primeira platéia: às vezes deparava-me
com a presença de vários; um ao lado do outro.
Mas não foi apenas isso.
Naquele preciso momento, um ouvinte acomodou-se num dos galhos e, pressentindo
que estava eu à procura de um tema, apresentou-me o seu.
- É isso!.. Eu transcrevi o canto ditado pela ave singela Foi meu primeiro
plágio.
Dezesseis
anos passaram.
Nos primórdios de 1990, a convite do Mto. Eleazar de Carvalho, terminara
de esboçar a minha Primeira Sinfonia,
que iria reger, à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo,
no Festival de Música Brasileira Contemporânea.
Aproveitei o período de férias (janeiro) para orquestrar a obra já totalmente
rascunhada. Fui para o Guarujá, onde fiquei só, com meus papéis, minha
anotações, meu entusiasmo pelo trabalho.
Trabalhava dia e noite, descansava quando sentia vontade de fazê-lo,
comia quando sentia vontade de comer, descia à praia quando tinha vontade
de renovar-me.
Foi nessa ocasião que os cordões carnavalescos se preparavam para os
alegres desfiles Passando pelos turistas, ao som de seus instrumentos
de percussão, pediam alguns trocados para poder completar os apetrechos
que faltavam (roupas, instrumental). Casualmente estava começando a
orquestrar, também aqui, o segundo tema.
Desci um pouco para usufruir da canícula praiana, quando pareceu um
desses cordões.
O ritmo era arrebatador. Agradou-me.
Sem pensar, comecei assobiar meu tema seguindo o ritmo da batucada.
Quando me dei conta, percebi que ele se encaixava perfeitamente na minha
música.
Não hesitei: alisei um pequeno espaço na areia e comecei a anotar o
ritmo de cada um dos instrumentos. Caixa, chocalho, pandeiro, surdo.
Decorei bem a parte de cada um. Subi rapidamente ao apartamento e derramei
generosamente no papel.
E este foi meu segundo plágio. Não de pássaro, mas de gente.
Passaram-se
emtão mais treze anos.
E mais uma vez estava eu na praia de Guarujá.
Coisa curiosa: há um elo de conexão entre cada um destes fatos...
Cada vez mais, a citada praia é invadida por duplas de nordestinos repentistas.
Eles cantam, massageiam o ego dos turistas e arrancam algum dinheiro
para seu sustento. Curiosamente um violeiro, não em dupla, mas desacompanhado,
passou por mim e abaixou-se bem atrás do meu chapéu-de-sol a fim de
improvisar alguns versos para uma familia que por ali estava.
Comecei a prestar atenção à cantoria. Era uma embolada mineira. A música,
linda. E os versos, de improviso, muito engraçados.
O cantador ganhou alguns trocados dos ouvintes e desapareceu no meio
da turba aboletada pelas areias quentes.
Mais uma vez subi para o apartamento e registrei o tema musical.
Não consegui saber quem era o cantador; ele não mais apareceu por lá.
Sim, pensei: ele veio para ditar sua cantoria, como o fez o pássaro
lapeano, ao pé do meu ouvido. Literalmente ao pé do meu ouvido.
Mal ele sabia que estava sendo registado e seria plagiado...
Plagiado?
Não: o violeiro anônimo forneceu o tema para as minhas Variações
sobre um Tema Anônimo Popular.
É uma homenagem a esses homens de talento e sensibilidade que criam
espontaneamente a sua arte sem reivindicar o reconhecimento de ninguém.
São eles os grande esteios da nossa nacionalidade; os portadores da
nossa rica cultura popular.
Valeu a
pena...
Alphaville,
3 de maio de 2003 - Dia da Santa Cruz e da sua festa na
Aldeia de Carapicuíba, SP. |
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