| Já
se passaram sete anos. Foi em janeiro de 93 que ele se foi. Mas a aura da
sua presença prevalece, nos dando a sensação de ter acontecido somente há alguns
meses. Não apenas pela força do seu carisma, mas principalmente por tudo
o que ele representou para aqueles que tiveram o privilégio de usufruir da sua
convivência. Fomos, seus alunos, me parece, os que mais conheceram a sua maneira
de ser, de pensar, de agir e reagir, de vivenciar a arte - que foi a razão de
toda a sua existência.
O sábado, para nós, era o melhor
dia da semana. Preferíamos sempre ter aula nesse dia; e ele próprio também.
É que não apenas recebíamos os preciosos ensinamentos, mas passávamos horas
com ele. E com os colegas também. Era sua preferência que todos os alunos
estivessem presentes e aproveitassem os ensinamentos que passava para aquele cujo
trabalho estava sendo analisado - cada sugestão, cada palavra valia para todos.
Assim, podemos dizer que nossas aulas eram particulares e depois coletivas.
Mas chegava o momento em que todos os trabalhos haviam sido já vistos e revistos.
Iniciava-se então a fase ampla do bate-papo informal, de onde nasciam as luzes
dos conceitos, das opiniões, da experiência de vida do mestre, cuja universalidade
tanto apreciávamos. Mas Guarnieri não apenas trazia esse manancial; ele sabia
passá-lo com comentários dosados de filosofia, de estética, temperados por pitadas
de humor fino. De um bom humor invejável. Às vezes, com alguma pimenta;
quando não sal amargo. A perspicácia das suas jocosas observações às vezes
criava momentos hilariantes. Se tivesse de citar passagens
desse tipo, haveria de escrever um livro inteiro. Vou, no entanto, citar
apenas uma delas, inesquecível lembrança de uma sátira que ficara, naturalmente,
entre quatro paredes. No meio de uma longa e circunspecta conversa, desejou
ele lembrar o nome de uma provecta pianista: "... aquela pianista... a... a...
como é que ela se chama?..." "Quem, maestro?..." E começamos
lembrar de vários nomes, sem, contudo acertar. À vista disso, ele, de súbito,
como era seu hábito, saiu-se com esta jóia: "...aquela que tem 200 anos!..."
Miraculosamente, descobrimos, na hora, a quem se referia. E,
evidentemente, o leitor não pedirá que eu revele de quem estávamos falando. Principalmente
porque agora teria de pensar em 220 anos!......... E por hoje é só... |