O Simbólico e o
Piano de Mozart

 

SANDRA ABRÃO



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A arte de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) é resultado da assimilação do espírito italiano e do gênio alemão. Obra que não é simples fruto da galanteria setecentista - aspecto decorrente da fase vienense, conseqüência do meio social que lhe emprestou refinamento de construção melódica e harmônica - mas que também desenvolve seriedade e grandiosidade de concepção.

As últimas sonatas para piano (K. 576 e K. 526) são pontos altos desta criação. Mozart associou perfeição formal a equilíbrio expressivo, onde o humano e o dramático emergem com força e profundidade.

Segundo o pianista Cláudio Arrau, "quase se poderia dizer que é o mais trágico do todos os compositores, pois nele a tragédia é congênita, interior, parte integrante da realidade do ser, da aceitação da vida e, por conseguinte, da morte; verifica-se isto na sua fantasia em dó menor (K. 475) e na sonata de mesmo tom, que terminam tão dolorosamente como começaram". (1)

Da mesma forma, a sonata em La maior (K. 310) parece espelhar a luta, o sofrimento que experimentou tão cedo. "A parte de sua obra menos compreendida responde à sua literatura pianística ", completa Cláudio Arrau.

As sonatas para piano solo (dezoito ao todo), compostas dos 17 aos 33 anos, de comprovada maturidade, constituem estudo prévio às sonatas de Beethoven.

A sonata K.309 parece evidenciar a resposta musical do "Sturm und Drang" ("Tempestade e ímpeto"), movimento filosófico e literário surgido na Alemanha da segunda metade do século XVIII, antecedente do Romantismo, que identifica a experiência para além da razão, apelando para o misticismo e a fé, ou seja, um conceito de razão infinita.

Na literatura para piano dos últimos anos de Mozart, o pressentimento da morte certamente acha-se retratado com maior evidência. É o caso do Adagio K. 540, do Rondo K.511, do Minueto K. 355, das sonatas K. 570 e K. 576 e da última obra para o instrumento solo: Variações K. 613.



A familia Mozart em 1781


Mozart, o grande virtuose do pianoforte, criou recursos de sonoridades orquestrais - evocativas de estados de alma; aliou o estilo non legato, reminiscente da era cravística, ao toque cantabile herdado do canto lírico, transferindo-os para o piano.

Este último aspecto, presente em seus andantes, são verdadeiras árias que combinam melopéia italiana e força gluckiana: já prenunciam a atmosfera pré-romântica e seguem em direção ao universo beethoveniano.

(l) "Mozart e a sua literatura para piano". A Gazeta, SP, 2l/0l/l959.

Você está ouvindo o 2º movimento da Sonata K. 545 (Andante) de W. A. Mozart)