NAZARETH, O BRASILEIRO

Parte II

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SÉRGIO VASCONCELLOS CORREA

Dizíamos no número anterior que, na tentativa de esclarecer as dúvidas existentes, iríamos descrever as peculiaridades de cada uma das citadas formas musicais, antecipando porém a nossa concordância com a indignada objeção do velho Mestre, quando afirmava: "Meus tangos não são maxixes". É o que faremos nesta segunda parte.

 

 


P O L CA ( PoIka )


Dança originária da Bohêmia, a "polca" chegou ao Brasil por volta de 1844 e adquiriu grande prestigio popular.
Porém a POLCA BRASILEIRA - da qual Nazareth nos deixou magníficos exemplos - nada tem de comum com a européia a não ser o ritmo binário. À primeira vista parece impossível distinguir as diferenças existentes entre a POLCA e o TANGO BRASILEIRO, tal como foram usadas pelo nosso compositor visto que, em ambas as formas, ele utiliza como ritmo básico o seguinte desenho:

(clique aqui para ouvir) ===>
intercalado ou substituído por outros que são comuns às duas formas,
tais como:

a ) (clique aqui para ouvir) ===>
b ) (clique aqui para ouvir) ===>
c) (clique aqui para ouvir) ===>
d) (clique aqui para ouvir) ===>
e) (clique aqui para ouvir) ===>

O exame analítico das partituras não é suficiente para elucidar o enigma, uma vez que a diferença básica resulta do fato de que uma sutil combinação dos elementos melódicos (polifônicos), rítmicos (polirrítmicos) e harmônicos, acaba por criar diferentes tipos de acentuação que, embora detectados pela sensibilidade, ficam camuflados pela grafia.
Desse modo, enquanto na POLCA o desenho rítmico resultante se apresente com acentuações nos dois tempos do compasso, no TANGO essas acentuações são deslocadas para as partes fracas dos tempos:

 
POLCA ....................... TANGO
   
a) ====>
b) ====>
c) ====>
d) ====>
e) ====>

Além desse aspeto dinamogênico, a POLCA (de Nazareth) apresenta outras características dignas de observação, tais como:

1 - Esquema formal: rondó de 5 seções (A-B-A-C-A).
2 - tonalidade: maior.
3 - compasso: binário simples (2/4).

4 - andamento: = 92 (aproximadamente)

5 - ritmos predominantes:
===>

6 - início: quase sempre em anacruse.
7 - linha melódica: fluente, representada por grupos de semicolcheias:

bruscamente interrompida por figurações da própria estrutura rítmica básica.

Segundo Baptista Siqueira, o ritmo obstinado de semicolcheias deriva, principalmente, do batuque africano, quando as mãos tocam alternadamente nos tambores.

TANGO BRASILEIRO

O termo "tango" apareceu pela primeira vez no Brasil (Rio de Janeiro) em uma composição musical intitulada "TANGO - Chanson havaneise de Lucien Boucquet (ou Bousquet) em transcrição de F. Crose" (1863).
O primeiro compositor brasileiro a utilizá-lo foi Henrique Alves de Mesquita, em sua peça "Ali Babá e os quarenta ladrões" (1872).
Essa peça, que continuou sendo apresentada durante 30 anos aproximadamente, serviu para estabilizar o gênero.
No entanto, foi Ernesto Nazareth que o sistematizou, quando, a partir de 1890 lhe deu a forma de rondó de cinco seções.
Suas principais características são:
1.. esquema formal: rondó (A-B-A-C-A).
2. tonalidade: predominam as maiores.
3. compasso: binário simples (2/4).

4. andamento: segundo determinação do próprio Nazareth: = 80

5. ritmos predominantes:

==>

6. inicio: tético ou anacrúsico.
7. linha melódica: cheia de "dengo", manhosa, com muitos acentos expressivos, os quais exigem andamento moderado. "Meus tangos nada têm com o dançante, no sentido exato do termo", costumava dizer Nazareth.
8. Música estritamente instrumental.


(Continua no próximo número)

Você está ouvindo o tango "Brejeiro"
de Ernesto Nazareth.