NAZARETH,
O BRASILEIRO

Netscape
clique para ouvir
som de fundo


SÉRGIO VASCONCELLOS CORREA


Se é verdade que Nazareth não foi um "pioneiro" no sentido exato do termo, está provado que grande parte da sua produção pianística é digna de figurar ao lado do que de melhor se fez em todo o mundo.

Se - isso é inegável - estamos diante de um dos primeiros compositores brasileiros de formação erudita que caracteriza nacionalmente a sua obra, por que razão ou razões, a sua música causou e ainda causa tanta controvérsia?

Por que os eruditos teimam em vê-lo como um simples criador de peças populares, enquanto os intuitivos sentem o maior dos embaraços ao tentarem reproduzir textualmente os seus escritos? - Consta que os dançarinos da sua época não gostavam muito do seu estilo "concertístico", preferindo o toque dos pianos a que já estavam habituados.

Por outro lado, quando Luciano Gallet, em 1922, "teve a ousadia" de incluir em um dos programas da então Escola Nacional de Música, quatro composições de Nazareth, sofreu tão séria resistência que teve de recorrer à polícia, a fim de poder realizar a audição.


CULTURA E INCULTURA

Afinal de contas, o que tem a música de Nazareth para provocar opiniões tão conflitantes?
É importante atentar para o fato de que a tendência nacionalista de Nazareth - manifestada já no primeiro trabalho, do mesmo modo que o seu inconfundível estilo - surgiu numa época em que o Brasil, dependente espiritual e economicamente dos fatores externos, era manipulado - como agora - por anti-nacionalistas, para os quais qualquer atividade artística local não passava de simplória exibição de incultura, por não ostentar nenhum vínculo com os protótipos e estereótipos vindos de fora.


Atribuir-lhe algum valor seria o mesmo que colocar a consagrada e milenar cultura européia lado a lado com o proverbial subdesenvolvimento cultural do povo brasileiro.

Bruno Kiefer dá uma interpretação semelhante ao fato quando afirma: "a causa da resistência à classificação de Nazareth como compositor erudito está simplesmente nisto: ele não fez outra coisa senão música brasileira, mais especificamente carioca, em boa parte de sua obra". "Uma velha dependência cultural da Europa nos fez importar de lá os conceitos de bom e ruim em arte. Nossos modelos são os Bach, Mozart, Chopin, Wagner, etc... Nazareth não figurava entre eles. Isso bastava para classificá-lo como popular, distante da grande arte, diga-se da grande arte européia".

Até que poderíamos aplicar para o caso de Nazareth, a célebre trova que Arthur Azevedo compôs para Henrique Oswald:

"É muito bom pianista,
Compositor altaneiro...
Em suma: um brilhante artista,
Mas coitado, é brasileiro."


* Outra confusão que a obra de Nazareth enseja é quanto à classificação de suas composições. Afinal de contas, os seus tangos são: tangos, maxixes, chôros, polcas ou o que? Na tentativa de esclarecer as dúvidas existentes vamos, no próximo número, descrever as peculiaridades de cada uma das citadas formas musicais, antecipando porém a nossa concordância com a indignada objeção do velho Mestre quando afirmava: "Meus tangos não são maxixes".

(Continua no próximo número)
(Sérgio Vasconcellos Corrêa é compositor e professor do Instituto de Artes da UNESP)