Se é verdade que Nazareth não foi um "pioneiro" no sentido exato do
termo, está provado que grande parte da sua produção pianística é digna
de figurar ao lado do que de melhor se fez em todo o mundo.
Se - isso é inegável - estamos diante de um dos primeiros compositores
brasileiros de formação erudita que caracteriza nacionalmente a sua
obra, por que razão ou razões, a sua música causou e ainda causa tanta
controvérsia?
Por que os eruditos teimam em vê-lo como um simples criador de peças
populares, enquanto os intuitivos sentem o maior dos embaraços ao tentarem
reproduzir textualmente os seus escritos? - Consta que os dançarinos
da sua época não gostavam muito do seu estilo "concertístico", preferindo
o toque dos pianos a que já estavam habituados.
Por outro lado, quando Luciano Gallet, em 1922, "teve a ousadia" de
incluir em um dos programas da então Escola Nacional de Música, quatro
composições de Nazareth, sofreu tão séria resistência que teve de recorrer
à polícia, a fim de poder realizar a audição.
CULTURA E INCULTURA
Afinal de contas, o que tem a música de Nazareth para provocar opiniões
tão conflitantes?
É importante atentar para o fato de que a tendência nacionalista de
Nazareth - manifestada já no primeiro trabalho, do mesmo modo que o
seu inconfundível estilo - surgiu numa época em que o Brasil, dependente
espiritual e economicamente dos fatores externos, era manipulado - como
agora - por anti-nacionalistas, para os quais qualquer atividade artística
local não passava de simplória exibição de incultura, por não ostentar
nenhum vínculo com os protótipos e estereótipos vindos de fora.
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Atribuir-lhe algum valor seria o mesmo que colocar a consagrada e milenar
cultura européia lado a lado com o proverbial subdesenvolvimento cultural
do povo brasileiro.
Bruno Kiefer dá uma interpretação semelhante ao fato quando afirma:
"a causa da resistência à classificação de Nazareth como compositor
erudito está simplesmente nisto: ele não fez outra coisa senão música
brasileira, mais especificamente carioca, em boa parte de sua obra".
"Uma velha dependência cultural da Europa nos fez importar de lá os
conceitos de bom e ruim em arte. Nossos modelos são os Bach, Mozart,
Chopin, Wagner, etc... Nazareth não figurava entre eles. Isso bastava
para classificá-lo como popular, distante da grande arte, diga-se da
grande arte européia".
Até que poderíamos aplicar para o caso de Nazareth, a célebre trova
que Arthur Azevedo compôs para Henrique Oswald:
"É
muito bom pianista,
Compositor
altaneiro...
Em suma: um brilhante artista,
Mas coitado, é brasileiro."
* Outra confusão que a obra de Nazareth enseja é quanto à classificação
de suas composições. Afinal de contas, os seus tangos são: tangos, maxixes,
chôros, polcas ou o que? Na tentativa de esclarecer as dúvidas existentes
vamos, no próximo número, descrever as peculiaridades de cada uma das
citadas formas musicais, antecipando porém a nossa concordância com
a indignada objeção do velho Mestre quando afirmava: "Meus tangos não
são maxixes".
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(Continua
no próximo número)
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(Sérgio
Vasconcellos Corrêa é compositor e professor do Instituto de Artes
da UNESP)
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