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Domingo. Matinê no Teatro Municipal.
Confesso que não estava muito entusiasmado para assistir um
espetáculo com um soprano de quem nunca ouvira falar e de uma
diretora de teatro e cinema, agora dirigindo uma ópera.
Ópera, para mim, é coisa muito séria. O respeito que tenho por
esta forma de espetáculo é tão grande que eu fico revoltado
quando vejo a má qualidade de uma encenação - tanto da parte
dos cantores quanto da regência ou da montagem.
A ópera, na verdade é a forma de arte mais completa que
existe.
Ela engloba, música, ballet, teatro (interpretação), artes plásticas
(cenários), iluminação, direção cênica, regência orquestral
e vocal, enfim, tudo isto ao vivo - é uma enorme responsabilidade
e um grande desafio.
Nada como um espetáculo ao vivo! Mas, tudo pode acontecer; tanto
surpresas agradáveis quanto o oposto.
Bem, eu fiquei simplesmente abismado com a protagonista da
Butterfly - uma moça chamada Eiko Senda,
nascida no Japão e radicada no Brasil.
Eu a estava assistindo pela primeira vez... Raras foram as ocasiões
em que vi uma cantora reunir em si tudo o que tem que possuir:
talento, volume de voz, técnica vocal, sensibilidade artística,
interpretação cênica e por aí vai...
E o papel de Butterfly é difícil mesmo.
No primeiro ato, ela tem que parecer ao espectador uma menina
de 15 anos, leve, inocente apesar de ter sido gueixa; às vezes
séria, às vezes engraçada. Após o difícil dueto com o tenor,
no primeiro ato, tem de passar a idéia de paixão, mantendo a
leveza do papel.
No segundo ato é a Butterfly-mulher, preocupada, saudosa, irritada
às vezes, ansiosa. E o dueto com o barítono tem que atingir
tudo isto, culminando com a fantástica ária Un bell'di vedremo.
No terceiro ato é a mulher-tragédia, desesperada,
mãe sofrida e abandonada, que culmina seu sacrifício com a própria
morte.
Se Eiko tivesse nascido num país de primeiro mundo, que leva
a arte a sério, com certeza estaria "estourando" no mercado,
como uma Tebaldi, Moffo ou qualquer soprano de fama reconhecida
internacionalmente.
Mas ela está no Brasil... Onde estão os caçadores de talentos???
Onde estão os empresários??
Por aqui só vai continuar como professora de canto e, de quando
em vez, fazer uma ou outra esporádica apresentação. Merece todo
o nosso respeito e o titulo de Dame, isto sim.
Marcelo Vanucci, saiu-se bem no difícil
papel de Pinkerton. O rapaz é novo no pedaço mas promete...
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