Sandra
Abrão
Jean de Léry (La Margelle, Genebra, 1534 - Berna, 1611), missionário
calvinista a serviço da expedição colonizadora da sonhada França Antártica
(de Villegaignon), foi o autor de Viagem à terra do Brasil.
Escrita em francês arcaico, a obra mereceu traduções de Alencar Araripe
e Sérgio Milliet. E de Plínio Ayrosa no que concerne à língua tupi.
A par dos relatos de outros viajantes que aqui aportaram no século
XVI, Viagem à Terra do Brasil constitui o mais fiel documento
de narrações de viagens do período colonial da nossa história, verdadeiro
estudo da etnografia indígena, de seus costumes, de sua língua e de
sua música.
Quanto a esta
última, embora os documentos sejam apenas cinco, percebe-se que Léry
tivera instrução teórica: as anotações são conscientes e corretas
(como abaixo vemos).
Trata-se de cantos tupis dos mais antigos, a exemplo do Canidé-iune
(nome de uma ave de plumagem amarela no peito):
Canidé-iune,
Canidé-iune, heura-ueh...
Segundo
interpretação de Plínio Ayrosa, talvez possa ser assim traduzido:
Canidé
amarelo, Canidé amarelo, tal qual o mel ....(1)
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2º registro
musical: Camurupuí-uassu
é uma alusão a um peixe grande, presente em cantos e danças dos
tupinambás:
Pirá-uassu a uéh, camurupuí-uassu...
Significaria:
Peixe grande, estou com fome, Camurupuí grande... (2)
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3º registro musical:
He, he, he, he...
canto procedente de uma espécie de ritual familiar, mais propriamente
uma reza exorcista, liderada por pajés, entoada por homens e repetida
por mulheres.
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4º registro musical:
Heu, heura, heura, heura, heura, heura, heura, heura, uéch!
Eram palavras proferidas pelo pajé às centenas de indígenas que
dançavam e cantavam ao som de chocalhos nas cerimônias rituais,
com o cunho de atrair para si as forças espirituais.
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5º registro musical:
Ao término do ritual anterior, através do
He, he, hua, he, hua, he hua, hua,
canto de louvor aos antepassados, celebram as esperanças de um encontro
numa vida de regozijo no além.
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Notas:
(1)
Há dúvidas quanto à tradução. Diz Plínio Ayrosa: "nada
podemos afirmar, está claro, em face da maneira porque se acha
grafada a última palavra". Sérgio
Milliet, p.108, n.300.
(2) Ibidem, p.118, n.341.
(3) Segundo Sérgio Milliet, p.162, n.408.
Fundo musical
desta página: "Canide iune" - versão
de Heitor Villa-Lobos

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