![]() | ENTENDENDO A LETRA DO HINO NACIONAL |
| Luciano Martins |
A música do Hino Nacional do Brasil foi composta por Francisco Manuel da Silva em 1831, em comemoração à abdicação do trono de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro II. Conhecido como Hino da Abdicação, foi depois transformado por D. Pedro II em Hino do Império. Após a proclamação da República, em 1889, foi oficializado pelo Marechal Deodoro como Hino da República. Só em 1909 é que a letra atualmente conhecida, de Osório Duque-Estrada, foi juntada à música, formando, portanto, a curiosa associação de uma melodia do início do Romantismo com uma letra composta no pré-Modernismo, dentro da rigorosa estética do Parnasianismo. Essa letra tem ao todo 50 versos, distribuídos em duas partes rigorosamente simétricas, tanto na métrica como no ritmo. O casamento, entretanto, não é tão harmonioso, pois o caráter marcial da melodia, típico dos hinos românticos, tem o dom de propiciar execuções apaixonadas, mas distrai a reflexão sobre a letra, igualmente empolgada e vibrante. Essa reflexão é necessária, especialmente por tratar-se de um texto parnasiano que privilegia a forma mesmo com sacrifício da clareza, oferecendo dificuldades de compreensão aos mais incautos. Para isso colaboram o preciosismo vocabular e as freqüentes inversões da ordem do discurso, tão ao gosto dos acadêmicos do final do século XIX mas tão distantes do universo das gerações atuais, familiarizadas apenas com o tom coloquial da linguagem da mídia. | ![]() Osório Duque-Estrada |
Um bom dicionário poderá traduzir para eventuais interessados termos como clava, flâmula, florão, lábaro, garrido, impávido, penhor e outros, não carecendo, assim, de maiores preocupações para sua compreensão. Mas... e a ordem direta? Quantos brasileiros saídos do Ensino Médio ou mesmo dos muitos cursos universitários têm condições de restabelecê-la? Questões de ordem A dificuldade de compreensão do Hino Nacional começa já na primeira estrofe:
Só a transposição dos versos para a ordem direta é capaz de desfazer o emaranhado jogo de palavras:
Mesmo assim, poucas pessoas entendem que se trata aí do famoso brado de "Independência ou morte" de D. Pedro I e que o sol da liberdade só então brilhou no céu da pátria porque foi exatamente só a partir daí que ela deixou de ser colônia de Portugal. A seguir, outra pérola do estilo parnasiano em que, para complicar ainda mais, a conjunção SE tem o valor de consecutiva, ou seja, de "já que, uma vez que":
Ou, passando para a ordem direta:
Que penhor? Que igualdade? Evidentemente, a garantia de que dali em diante Brasil e Portugal estariam rigorosamente igualados como nações. A mesma conjunção SE trai o leitor (ou cantor) em outra situação, logo a seguir, em que tem valor temporal:
Em ordem direta:
Fica,
assim, mais clara a associação feita pelo poeta entre os sonhos da jovem pátria
e as emanações
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