CENTENÁRIO DE CAMARGO GUARNIERI
TRIBUTO A UM MESTRE DA MÚSICA NO BRASIL


Camargo Guarnieri (1907 - 1993) personaliza um importante período da música brasileira:
o da sua solidificação como linguagem e como expressão legitimamente artística.
Principalmente levando em consideração o fato de ser a nossa cultura
essencialmente ágrafa e a tecnologia (vinda de fora) ter trazido, de arrastão,
linguagens que não são nossas, mas que foram impostas pelos trunfos da
comunicação. E ainda a sensação (também imposta) de que as manifestações
oriundas de nossas raízes seriam uma estagnação, um retrocesso, quando a ordem
do progresso seria a da evolução, a da transformação constante e acelerada, a da
experimentação, a do abandono de tudo o que fosse rotulado e considerado antigo.

É claro que, se fizermos uma reflexão sadia, concluiremos que o próprio produto
importando também não é novo nas países de onde foi trazido:
nada mais é do que o resultado de um trabalho de marketing bem-elaborado,
com o fim bem-sucedido de endereçar divisas para além das nossas fronteiras.


Como conseqüência, a nossa cultura espontânea (a folclórica), e especialmente
a arte popular, passou a ser vista como secundária, como um produto de
pouco valor, sinônimo de atraso, vergonha. Ela não teria a dignidade
suficiente e necessária à conceituação de arte. O seu valor seria desprezível,
coisa de terceiro mundo:de grupos sociais (a maioria rurais) incultos,
alheios à escalada ao século XXI.

Mas, reflitamos: será correta esta maneira de "sentir" urbano? Será a nossa
cultura espontânea realmente indigna, secundária? Haverá, por parte dos
interesses desses grupos de imposição, uma sã hierarquia de legítimos valores?

Alheio a toda esta efervescência que impõe os seus próprios produtos
como sendo os únicos legítimos, o compositor Camargo Guarnieri jamais
abandonou seus princípios, solidamente alicerçados na convicção de ser
o portador de uma arte nacional, oriunda de uma cultura verdadeira, chegando
a estabelecer escola de Composição, da qual emergiram os melhores
autores brasileiros daquela segunda metade de século.


A solidificação dessa linguagem musical e desses princípios estéticos
e técnicos iniciou-se em pleno século XX, a partir da obra e do
pensamento de Heitor Villa-Lobos, que teve de enfrentar, já então,
uma onda de descrédito, de repulsa por parte de críticos, colegas e
do próprio público: a sua música fugia dos padrões europeus
e inseria caracteres típicos da música popular.

A partir de 1922, o movimento modernista iria incluir a cultura popular
como forma de legítima expressão que a arte chamada erudita
poderia - e até deveria - explorar: procurava-se a autenticidade,
a verdadeira maneira do povo sentir, pensar, agir.
Foi Mário de Andrade o principal mentor do movimento no Brasil.

Nos anos que se seguiram, teve Camargo Guarnieri, jovem promissor,
permanente contato com Mário de Andrade, que considerava seu
principal professor, embora nunca o tenha sido na qualidade de discípulo.


Ouça Camargo Guarnieri
(Em arquivo MP3)

Ponteio n° 22
(ao piano: o próprio compositor)

Ponteio n° 24
(ao piano: o próprio compositor)

Ponteio n° 33
(ao piano: o próprio compositor)

 


Mas o seu pensamento, os seus conselhos, a sua orientação eram aulas valiosas,
às quais Guarnieri sempre se referia na conversa informal com seus alunos.
Não que Guarnieri tivesse se submetido ao pensamento de Mário de Andrade,
aceitando e incorporando o que o mestre mais velho impingia.
A amizade de ambos nasceu principalmente pela comunhão de idéias
e de ideais: ambos possuíam maneiras semelhantes de pensar a arte brasileira.

O falecimento de Mário de Andrade em 1945 talvez tenha sido o motivo
da solidificação dos princípios comuns e do desejo de impedir que
os valores apregoados pelo grande escritor fossem esquecidos.
Assim é que nasceu a Escola Camargo Guarnieri: a partir da publicação,
cinco anos mais tarde, da famosa "Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil",
na qual, em face do surgimento de corrente estética adversa à música brasileira,
o compositor se posicionava e pronunciava como autêntico defensor das idéias
nacionalistas e da legitimidade dessa expressão artística que iria se estender,
pelo do exemplo de sua própria obra, pela obra dos seus futuros discípulos,
assim como na de outros compositores condizentes com o seu
pensamento artístico, até os dias atuais.


Camargo Guarnieri nasceu em Tietê SP) (1/02/1907) e iniciou seus
estudos de música com o professor Virgílio Dias, daquela cidade.
Em 1923 a família muda-se para São Paulo, onde, no ano seguinte,
passa a estudar com Ernani Braga e com Sá Pereira, até 1926.
O maestro italiano Lamberto Baldi, chegou nessa éppoca ao Brasil;
com ele Guarnieri continua seus estudos até 1930.
Em 1928 conhece e passa a conviver com Mário de Andrade.
Nesse período de formação técnica e cultural, toca piano num cinema
mudo do bairro da Lapa (Cine Teatro Recreio) e numa loja de música da
rua de São Bento, tendo posteriormente sido contratado como professor
de piano do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (1927-1930).

Da esquerda para a direita: Mário de
Andrade, Lamberto Baldi e Camargo Guarnieri


Camargo Guarnieri na década de 80,
em seu estúdio na rua Pamplona (SP)


Com a nomeação de Mário de Andrade para o Conselho Estadual de
Cultura, funda, a convite deste, o Coral Paulistano, à frente do qual
trabalha por alguns anos. Deste período é a sua primeira sonatina,
com expressões brasileiras como "ponteado", "molengamente", "Bem
depressa". O ano de 1930 também marcou outro momento importante
da carreira do compositor: a canção Impossível Carinho fora escrita
sobre versos de Manuel Bandeira e mereceu deste a mais efusiva admiração.
No ano seguinte, o seu Choro n° 3 é premiado no Rio de Janeiro
pelo Instituto Nacional de Música.
Em 1936, outro prêmio: o do Departamento de Cultura de São Paulo
pela peça coral Coisas deste Brasil.
Mais um ano, pela mesma entidade, mais um prêmio: para a sua obra
Flor de Tremembé (para 15 instrumentos, solistas e percussão).
Em 1938 ganha bolsa de estudos, podendo viajar para a França,
onde recebe orientação de Charles Koechlin (1867-1950) (Contraponto,
Fuga, Composição, Estética Musical) e François Ruhlmann (1896-1945)
(Regência coral e orquestral).

Com o início da guerra, em 1939, retorna ao Brasil. Segue-se, então,
uma série de prêmios: em 1942, nos Estados Unidos, o de seu Concerto
para violino e orquestra, que lhe valeu uma viagem àquele país, patrocinada
pela Pan American Union; em 1944, em São Paulo, pela sua Primeira
Sinfonia e pelo Primeiro Quarteto para cordas (RCA Vitor, para
compositores da América Latina).
No ano seguinte inicia uma viagem, para mostrar sua obra,
pela Argentina, Chile e Uruguai.

Em 1946 o seu Segundo Concerto para piano é premiado em São Paulo.
O compositor segue mais uma vez para os Estados Unidos, onde rege,
à frente da Sinfônica de Boston, a Sinfonia n° 1. No ano que se segue,
a Concurso Internacional "Sinfonia das Américas" premia a sua Segunda
Sinfonia. Em 1952 estréia, no Rio de Janeiro, a ópera Pedro Malasarte,
com texto de Mário de Andrade. Em 1953 segue para Bruxelas, a fim de
participar, como jurado, do Concurso Internacional Rainha Elizabeth.
Em 1954 é premiado no Concurso do Quarto Centenário de São Paulo.
De 1955 a 1960 exerce o cargo de Assessor Técnico do MEC, a convite
do ministro Clóvis Salgado. O Festival Internacional de Música de Caracas
(Venezuela), em 1956, confere o 1° Prêmio ao seu Choro para Piano e
Orquestra. Dois anos mais tarde embarca para Moscou, a fim de integrar
o júri do Concurso Internacional de Piano Tchaikowsky.
Em 1959 assume a presidência da Academia Brasileira de Música,
da qual é um dos fundadores.

O tempo e a música, livro de 670 páginas, orgamizado por Flávio Silva, reúne
biografia, depoimentos, fotos, análises
de vários autores.
(na capa: retrato de Portinari)


Participou, como jurado, dos concursos internacionais de
regência "Dmitri Mitropoulos" (Estados Unidos) e de piano
"Vianna da Mota" (Portugal);
foi professor de Composição da Faculdade de Música de Santos,
do Conservatório Estadual de Uberlândia e da Universidade
Federal de Goiás.
Fundou, em 1975, a Orquestra Sinfônica da USP, à frente da
qual esteve até o fim da vida, tendo viajado várias vezes aos
Estados Unidos para apresentar suas obras e ministrar cursos.
Em 1992 recebeu da OEA, em Portugal, o grande prêmio
"Gabriela Mistral", que lhe conferia o reconhecimento como maior
compositor contemporâneo da três Américas.

Camargo Guarnieri foi um incansável batalhador pelos seus ideais,
jamais esmorecendo, jamais diminuindo a intensidade do seu
trabalho e a sua criação - fértil até o último dos seus dias.
Deixou um exemplo não apenas para seus discípulos, mas para
toda a arte da nossa terra e do nosso tempo.


A OBRA


É difícil relacionar todo o acervo da obra do grande
compositor. Poderemos lembrar que Guarnieri
percorreu todos os gêneros da criação musical,
tendo inclusive criado o gênero Ponteio (prelúdio
em formas brasileiras). Deixou duas óperas
(Pedro Malasarte e Um homem Só), várias sinfonias,
concertos para vários instrumentos, suítes sinfônicas,
aberturas. O gênero camerístico ganhou uma infindável quantidade de obras para os mais diversos
agrupamentos: trios, quartetos, quintetos, assim
como duos, nos quais registram-se inúmeras sonatas.
Para piano compões estudos, danças, improvisos,
ponteios, sonatas, sonatinas, toadas, valsas, etc.
Escreveu obras corais e sacras. As suas canções
representam a mais importante contribuição à música
do Brasil: mais de quinhentas, cujos caracteres
delinearam o perfil mais autêntico da nossa música
e provavelmente pelos quais melhor esboça a
personalidade artística do grande mestre.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- BORBA, T. , LOPES G. Dicionário da música. Lisboa: Cosmos, 1956.
- CAMARGO GUARNIERI: 1907-1993. In emoriam.
São Paulo: ECA, 1993.
- HONEGGER, M. Dictionnaire de la musique. Paris: Bordas, 1986.
- ______ Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. 2 ed. São Paulo: Art Editora e Publifolha, 1998.
- ______ Inauguração da temporada 1975. São Paulo: Prefeitura do Mun. de S.Paulo, 1975.
- ______ Orquestra sinfônica da USP. São Paulo: USP, 1987.
- ______ O tempo e a música. Org: Flávio Silva. Rio de Janeiro: Funarte, 2001.

Eduardo Escalante
Compositor, regente, professor ap. do Instituto de Artes da UNESP.
Publicado em ARTEunesp. São Paulo, 9:279-283, 1993




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