Quem não tem na lembrança algum episódio pitoresco ocorrido em circunstâncias
específicas: numa reunião, numa transmissão radiofônica, numa entrevista
jornalística - do cômico até o trágico...
Quando se trata de música, então, os fatos são ainda mais pitorescos.
Vejamos, então, cinco ocorrências, todas verídicas e do século XX.
Do Teatro Municipal
de São Paulo, lá pelos idos da década de sessenta, transmitiam-se via
TV, os tradicionais Concertos Matinais, sempre aos domingos.
A TV Tupi dispunha de uma equipe muito bem treinada e a programação,
para os que não freqüentavam assiduamente o teatro, tornara-se compromisso
obrigatório dos amantes da boa música de concerto.
Cláudio de Luna era o apresentador oficial. Simpático, bem humorado,
descontraído; mas às vezes ousado na apreciação pessoal, nem sempre
bem programada.
Principalmente porque os espetáculos eram exclusivamente ao vivo: o
que ocorresse, ocorreria...
Foi então que, com toda a empostação vocal, o apresentador anunciou:
- "E a seguir ouviremos a ópera Carlos Gomes, de Salvador Rosa..."
E não é que alguns leigos consultaram os dicionários para saber a respeito
desse novo compositor?
Mais uma do referido
apresentador: no intervalo de uma concerto da Orquestra de Câmera de
São Paulo, dedicado a J. Sebastian Bach, entrevista o regente
o anuncia: - "ouvimos de Bach, compositor nascido em 1500..."
O maestro interrompe: -"... não Cláudio, você se cofundiu. Bach viveu
no século XVIII..."
"... Não, Maestro, acho que o Sr é que se confundiu..."
E os telespectadores perceberam então claramente que, a não ser pela
interferência da equipe técnica, o episódio poderia, perante as câmeras,
terminar em troca de tapas...
Pior do que isso
ocorreu - já na década passada - ao se anunciar a apresentação do Requiem
de Anton Dvorak, que seria gravado no auditório do Masp,
em São Paulo, pela Orquestra Sinfônica Jovem sob a regência do Mto.
Juan Serrano.
Também com "reprise", saltou o anúncio: na data tal, em tal local, execução
do famoso Requiem de Antônio de Morais...
É provável que até hoje alguém ainda esteja procurando outras obras
desse excelente compositor brasileiro.
Na coleção de CDs
denominada Grandes Clássicos, da editora espanhola de Madrid , Ediciones
del Prado, incluiu-se a famosa Uma noite em Monte Calvo do mestre
russo Modest Mussorgsky, interpretada pela Philharmonia Slovenica
sob a regência de Alberto Lizzio.
A coleção foi também lançada nos países de língua portuguesa, e, para
tanto, contrataram um "tradutor".
Acontece que a bizarra personagem não estava lá muito familiarizada
com a língua de Camões. Ora: calvo é careca. E em espanhol
careca é pelado.
Daí empolgadamente traduzir: Uma noite em Monte Pelado...
A genialidade de Mussorgsky produziu uma obra realmente de arrepiar.
Mas à noite e pelado: arrepiar de frio...
A última ocorreu
à talentosíssima Magdalena Tagliaferro: além de uma vida ampla,
alcançou a pianista a proximidade dos cem anos, sem jamais perder a
força, o charme, o vigor artístico, a sensibiblidade extraordinária.
Foi um exemplo em todo sentido. Inclusive quanto à perspicácia.
Quase no final da vida, um repórter afoito, querendo tirar partido da
sua presumível veia humorística, ataca a artista com todo o seu mau
gosto perguntando: - "Dona . Madalena: é verdade que a Sra. esteve
no velório de Beethoven?"
Tagliaferro com toda tranqüilidade respondeu: - "Não, no velório
de Beethoven não estive. Mas no seu, com toda certeza estarei..."
E por aqui ficamos,
antes que alguém descubra as nossas próprias gafes...