Estréia da ópera O Pagador de Promessas.
Teatro João Caetano, Rio de Janeiro -
25 de agosto de 2006.

EDUARDO ESCALANTE
70 ANOS

Por Luis Roberto Trench



O compositor Camargo Guarnieri (1907-1993) teve um papel
semelhante ao que Brahms desempenhou em seu tempo, na
Alemanha, transplantado para o Brasil do século XX na música, ou
seja, organizou toda a seqüência de experiências anteriores
nacionalistas, de uma riqueza esplêndida, e que tiveram como máxima
expressão o gênio de Villa-Lobos (1887-1959): no sentido de uma maior
coerência de linguagem musical, de uma exploração mais racionalizada
do discurso sonoro, tendendo, por isso mesmo. a um neoclassicismo que
encontrou - tal como Brahms - nos gêneros derivados da forma sonata
(sinfonia, concerto), o meio ideal de expressão.
Assim como o mestre alemão, lançou mão de uma inspiração lírica,
aliada a um preferencial uso do recurso do contraponto em sua
linguagem musical.
Camargo Guarnieri, como bem afirmou o pianista e compositor
Acchile Picchi, criou uma escola estética no sentido
neo-renascentisrta do termo, e chegou a um refinamento
de expressão que beirou o universalismo.
Nessa escola estética guarnieriana houve espaço para muitas
personalidades, embora ficassem claras as linhas
mestras de filiação.

Muito embora expressivos nomes da atualidade
musical brasileira, como Marlos Nobre,
Almeida Prado e Alceo Bocchino
(também ilustre regente) tivessem passado
por suas mãos, logo seguiram caminhos próprios.
Os dois primeiros, como representantes da
vanguarda, embora com diversos toques nacionais,
diferem do gaúcho Armando Albuquerque e do
santista Gilberto Mendes, totalmente
compromissados com o vanguardismo
europeu do pós-guerra.

Segundo o ilustre crítico Caldeira Filho, o
importante compositor Ascendino Theodoro
Nogueira teria sido aluno de Guarnieri, o que foi
desmentido em depoimento a mim prestado
por Nogueira.
Discípulos verdadeiros, Camargo Guarnieri
tê-los-ia encontrado numa lista encabeçada por
quatro compositores de peso: Nilson Lombardi
(1926), Osvaldo Lacerda (1927), Sérgio
Vasconcellos-Corrêa (1934) e
Eduardo Escalante (1937),
de quem trata este nosso ensaio, e que
comemora a passagem de seus 70 anos.

Nascido em Buenos Aires e posteriormente
naturalizado brasileiro, tem prestado mais
serviços ao nosso país do que muitos brasileiros.
As atividades culturais de Eduardo Escalante
não se restringem ao talentoso e excelente
compositor erudito que é, senão que se espraiam
em muitas atividades correlatas, tais como as de
professor de composição (Unesp), historiador
(Academia Paulistana da História), folclorista
(Comissão Estadual de Folclore - Secretaria de
Estado da Cultura), jornalista (coluna "Música
Erudita" - da extinta Folha da Tarde, Grupo
Folhas), crítico (ex-membro do júri da Associação
Paulista de Críticos de Artes - APCA), editor
(Correio Musical - revista interativa), maestro-
arranjador (Estúdio Eldorado), regente-convidado
(inclusive diversas vezes pelo Mto. Eleazar
de Carvalho).
É Eduardo Escalante o caso típico - não muito
freqüente - do compositor intelectual.
Podemos evocar, a esse respeito, os nomes de
Osvaldo Lacerda, Marlos Nobre, Edino Krieger,
Sérgio Vasconcellos-Corrêa e, num passado
mais recente, Francisco Mignone e Guerra
Peixe (saudoso amigo).

Escalante também se insere nessa linha de
compositores que exerceram, paralelamente, lides
intelectuais, afirmando, como em todos esses casos, independência da espírito.
Mas é o compositor Escalante que será o foco
deste ensaio, porquanto é nessa atividade que
imprimiu a principal marca de suas pluriatividades.


Matéria publicada na Revista Concerto
(Guia Mensal de Música Erudita) - novembro 2007 .
São Paulo, ano XIII, n.134. Página 10




Foram seus professores: Francisco Conserino e
Vera Del Nero Gomes, Piano, Emmerich Csammer
(Áustria) e Diogo Pacheco, Regência. Tendo estudado Percepção com Souza Lima, Harmonia, Análise e
Contraponto com Osvaldo Lacerda e Composição -
como já acima dissemos - com Camargo Guarnieri,
é dono de um catálogo de mais de 300 obras,
que vão de peças curtas para piano e um pequeno
"Solilóquio" até a ópera "O Pagador de Promessas".
Esta obra - e com amplo sucesso - foi estreada
no Rio de Janeiro.
Outras obras de envergadura são a premiada
Sinfonia n° 1, de 1991, e o Poema Coral-Sinfônico
"Sertões", sobre o livro homônimo de Euclides da Cunha,
o que lhe demandou anos de pesquisa, inclusive viagens
à Bahia para pesquisa in loco.
A feitura da ópera O Pagador de Promessa foi a
pedido do próprio autor, Dias Gomes.
A citação dos títulos já estarão, provavelmente fazendo
com que o leitor situe Escalante dentro da corrente
nacionalista, inclusive pela filiação destacada à
Escola Paulista de Composição de Camargo Guarnieri.
Chega a afirmar o ilustre Vasco Mariz na 5ª e 6ª
edições do seu clássico "História da Música no Brasil"
que o compositor foge da denominação de "nacionalista", havendo diversos grãos de verdade em sua logística.

Retrato - pintor Itsuo (Mário) Kubo



Eduardo A. Escalante
A Festa de Santa Cruz da Aldeia de Carapicuíba
no Estado de São Paulo.

1° Prêmio Concurso Sílvio Romero 1974.
(MEC e Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo).



O certo é que há uma relativística em tudo isto.
Em certas obras - principalmente nas de ordem
camerística - existe uma clara inspiração nacional,
bem como na temática de algumas obras de envergadura.
Só que Escalante, emérito contrapontista, ao contrário
de Guarnieri cujo contraponto visceral visa, acima de
tudo, frisar e enobrecer o caráter folclórico de sua
inspiração, usa da temática não tão acentuadamente
nesse aspecto.
Inserindo-a dentro de um arcabouço polifônico
extremamente sólido, no qual são cabíveis diversas transformações temáticas, passando a impressão ao
especialista que a estrutura de seu polifonismo transcende,
e em muito, em importância, a temática oriunda de sua
melódica, toda ela gravitante no campo tonal ou modal,
sem a mínima simpatia pela tonalidade alargada de seu
mestre Guarnieri, e isenta de qualquer incursão no
atonalismo ou no dodecafonismo shoenberguiano.

Voltando a Vasco Mariz, a logística do grande
musicólogo, embora possua certa procedência no caso
de Escalante, ela não é absoluta, porquanto o compositor,
sério estudioso do folclore, impregnou sua obra de
salutar influência do mesmo.
Só que o fez de um ponto de vista muito elevado,
com vistas a transcendê-lo e o consegue com
brilhantismo de escritura contrapontística e habilidade
orquestral e instrumental consumada.
De certa forma, o referencial folclórico acaba se
diluindo em uma música de caráter mais universal;
talvez seja isto que Vasco Mariz, ilustre amigo, percebeu.
A difusão extemporânea da vanguarda dificulta, mas não
tanto, a divulgação dos verdadeiros compositores brasileiros.
A obra de Escalante está aí para confirmá-lo.
Mas a cada dia ela rompe o cerco,
graças a seu mérito intrínseco.

Luis Roberto Trench
Crítico, musicólogo, jornalista. Conferencista, Consultor Cultural. Presidente do júri de Música Erudita da APCA. Titular da International Society for Contemporary Music, London. Correspondente da Unesco, Paris. Catedrático da Academia Internacional de Música.
Publicado na Revista Santos Arte e Cultura
Ano I. Vol.6 - novembro de 2007

 

 




O ensaio de Luis Roberto Trench para o jornal O Dia
São Paulo, 9 de outubro, página 4:






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