![]() | Dias
Gomes
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Certamente
O Pagador de Promessas é a obra mais importante do |
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| Relatou Dias Gomes que tudo começara pouco tempo após a Segunda Guerra Mundial. Num jornal carioca registrava-se, sem muito alarde, um fato ocorrido na Alemanha. Um soldado, ante o desespero de uma guerra perdida e a possibilidade cada vez menor de sobreviver, nas ruínas do altar de uma igreja fez um promessa: se conseguisse chegar vivo ao final da contenda, faria uma peregrinação de seis léguas - da sua cidade até a igreja de sua devoção, carregando, nas costas, uma cruz do tamanho presumível da de Cristo. A sorte sorriu-lhe e, tempos depois, ele estava cumprindo a sua promessa. Dias Gomes ficou impressionado com este fato e percebeu que poderia se constituir no eixo motriz de uma obra teatral, transmutada na temática controversa do antagonismo religioso, da dialética social e moral, da tradição ante o proverbial sincretismo. Em especial da sua pitoresca Salvador. O sacrifício, parte de uma devoção antiga apregoada pelos ministros da religião oficial, completaria o mérito de um agradecimento. Mas no Brasil, as manifestações da religiosidade popular foram ampliadas por uma imensidão de crenças, crendices e ritos provindos das inúmeras expressões religiosas que aqui se fundiram. Desta forma, nasceu uma história de ficção que custa-nos acreditar não tenha sido real. |
Um homem da roça, temendo pela recuperação de seu animal de estimação - um bondoso jegue chamado Nicolau - que fora vítima de um acidente provocado por uma tempestade, recorre à entidade de sua devoção: Santa Bárbara. Relacionada aos ventos e tempestades, ninguém melhor do que ela para atender ao seu pedido. Mas no lugarejo onde morava não existia essa igreja. Onde, então, poderia fazer a promessa? Num terreiro, no altar de Iansã que o sincretismo reconhecia como sendo a mesma entidade, protetora das tempestades. A promessa: carregar, de lá até a igreja mais próxima - de Santa Bárbara - uma cruz "do tamanho presumível da de Cristo". Mas a referida igreja só existia em Salvador. E ficava a seis léguas de distância. Zé-do-Burro (esse é o seu nome), seguido por sua mulher e com a cruz às costas, completa, sem descanso, o percurso e se depara com a cidade que, dizem, tem uma igreja para cada dia do ano. Ao aparecimento do vigário, Zé-do-Burro relata a sua promessa. | ![]() |
![]() ![]() | O primeiro impacto ocorre quando o reverendo descobre que Nicolau não era outro senão... um burro. Uma promessa para um burro?! Mas o segundo era inconcebível para o defensor da fé cristã, numa cidade atordoada por tantos terreiros, tantas filhas-de-santo, tanta gente confundindo fé com crendice. Fazer uma promessa a uma santa católica através de um orixá? Em vista disso, o padre proíbe a entrada do devoto por acreditar que o mesmo está possuído pelo demônio. Nesse estado conflitante, chocam-se os hábitos e a moral rural com os do meio urbano, poluído por anseios tão diferentes daqueles do homem do interior. Figuras populares, então, aparecem e se cruzam no caminho do devoto: um poeta mergulhado na sua pobreza e boemia, um comerciante interesseiro, um repórter que busca sensacionalismos, um guarda bonachão, um gigolô inexorável. Fonte inesgotável para um estudo sociológico, Dias Gomes criou também antagonismos. O de uma beata fanática e intransigente, caricata, em contrapartida a uma filha-de-santo bondosa e fraternal. O de uma moça da roça, ingênua, aturdida pelos fatos inéditos que estão ocorrendo, que acaba caindo nos laços da sedução de um gigolô inescrupuloso, imoral, insensível. E o eixo do enredo da história - mais dramático - que é o do padre, intolerante, agressivo, zeloso da sua guarda à casa-de-Deus - figura do poder autoritário - contraposto ao devoto humilde, ingênuo, a imagem do povo oprimido e sem glória. |
O padre não transige na sua decisão. E nem o Pagador que quer entrar na igreja a qualquer custo. O drama intensifica-se com a chegada da polícia. E no entrevero do povo, que reage à opressão do poder, um tiro é disparado. Zé-do-Burro, para espanto de todos, cai morto. O povo, na sua revolta, põe o corpo sobre a cruz e entra, pela força, na igreja até o altar de Santa Bárbara. Assim, o simples relato jornalístico, que teve, na Alemanha, um desfecho feliz, moldou essa temática tão brasileira e, por isso mesmo, contrastante, pitoresca - lídimo retrato da nossa realidade religiosa e sociocultural. | ![]() |
Publicado
na revista Santos Arte e Cultura. Ano II Vol. 8 Bimestral - março de 2008. revistaartecultura@yahoo.com.br ![]() |