Eduardo Escalante

Dias Gomes
e o
Pagador de Promessas

 

 

 

Certamente O Pagador de Promessas é a obra mais importante do
escritor, dramaturgo e novelista Dias Gomes (Salvador, 1922 - São Paulo, 1999).
Levada aos palcos, ao cinema, ao rádio e à televisão, traduzida e publicada
pelo mundo todo, recebeu, além da Palma de Ouro do Festival Internacional
de Cinema de Cannes (França, 1962), mais dezesseis prêmios;
no Brasil e no exterior.

Provavelmente poucos sabem qual a origem do brasileiríssimo texto que
aborda o antagonismo secular entre a Igreja e as religiões afro-brasileiras -
no caso, o Candomblé.

Quando fomos convidados, em 1992, pelo diretor teatral francês Henri
Doublier, para iniciar o projeto da composição de uma ópera, estruturada
sobre o texto de seu amigo Dias Gomes, fomos para o Rio de Janeiro.
O nosso convívio com o escritor iniciou-se por um depoimento,
gravado pela que seria a co-libretista: Marie Jeanne Calasans.


 


Dias Gomes






Relatou Dias Gomes que tudo começara pouco tempo após a
Segunda Guerra Mundial. Num jornal carioca registrava-se,
sem muito alarde, um fato ocorrido na Alemanha.
Um soldado, ante o desespero de uma guerra perdida e a
possibilidade cada vez menor de sobreviver, nas ruínas do altar
de uma igreja fez um promessa: se conseguisse chegar vivo ao final
da contenda, faria uma peregrinação de seis léguas - da sua cidade
até a igreja de sua devoção, carregando, nas costas,
uma cruz do tamanho presumível da de Cristo.
A sorte sorriu-lhe e, tempos depois, ele estava
cumprindo a sua promessa.

Dias Gomes ficou impressionado com este fato
e percebeu que poderia se constituir no eixo motriz de uma obra
teatral, transmutada na temática controversa do antagonismo
religioso, da dialética social e moral, da tradição ante o proverbial sincretismo. Em especial da sua pitoresca Salvador.
O sacrifício, parte de uma devoção antiga apregoada pelos
ministros da religião oficial, completaria o mérito de um agradecimento.
Mas no Brasil, as manifestações da religiosidade popular foram
ampliadas por uma imensidão de crenças, crendices e ritos provindos
das inúmeras expressões religiosas que aqui se fundiram.
Desta forma, nasceu uma história de ficção que custa-nos
acreditar não tenha sido real.

Um homem da roça, temendo pela recuperação de seu animal de
estimação - um bondoso jegue chamado Nicolau - que fora vítima
de um acidente provocado por uma tempestade, recorre à entidade de
sua devoção: Santa Bárbara.
Relacionada aos ventos e tempestades, ninguém melhor do que ela
para atender ao seu pedido.
Mas no lugarejo onde morava não existia essa igreja.
Onde, então, poderia fazer a promessa? Num terreiro, no altar de Iansã
que o sincretismo reconhecia como sendo a mesma entidade, protetora
das tempestades.
A promessa: carregar, de lá até a igreja mais próxima - de Santa
Bárbara - uma cruz "do tamanho presumível da de Cristo".
Mas a referida igreja só existia em Salvador.
E ficava a seis léguas de distância. Zé-do-Burro (esse é o seu nome),
seguido por sua mulher e com a cruz às costas, completa,
sem descanso, o percurso e se depara com a cidade que, dizem,
tem uma igreja para cada dia do ano.
Ao aparecimento do vigário, Zé-do-Burro relata a sua promessa.







O primeiro impacto ocorre quando o reverendo descobre que Nicolau
não era outro senão... um burro.
Uma promessa para um burro?! Mas o segundo era inconcebível
para o defensor da fé cristã, numa cidade atordoada por
tantos terreiros, tantas filhas-de-santo, tanta gente
confundindo fé com crendice.
Fazer uma promessa a uma santa católica através de um orixá?
Em vista disso, o padre proíbe a entrada do devoto por acreditar
que o mesmo está possuído pelo demônio.

Nesse estado conflitante, chocam-se os hábitos e a moral rural
com os do meio urbano, poluído por anseios tão diferentes daqueles
do homem do interior.
Figuras populares, então, aparecem e se cruzam no caminho do devoto:
um poeta mergulhado na sua pobreza e boemia, um comerciante
interesseiro, um repórter que busca sensacionalismos,
um guarda bonachão, um gigolô inexorável.

Fonte inesgotável para um estudo sociológico, Dias Gomes
criou também antagonismos.
O de uma beata fanática e intransigente, caricata, em contrapartida
a uma filha-de-santo bondosa e fraternal.
O de uma moça da roça, ingênua, aturdida pelos fatos inéditos
que estão ocorrendo, que acaba caindo nos laços da sedução
de um gigolô inescrupuloso, imoral, insensível.
E o eixo do enredo da história - mais dramático - que é o do padre, intolerante, agressivo, zeloso da sua guarda à casa-de-Deus -
figura do poder autoritário - contraposto ao devoto humilde,
ingênuo, a imagem do povo oprimido e sem glória.

O padre não transige na sua decisão.
E nem o Pagador que quer entrar na igreja a qualquer custo.
O drama intensifica-se com a chegada da polícia.
E no entrevero do povo, que reage à opressão do poder,
um tiro é disparado. Zé-do-Burro, para espanto de todos, cai morto.
O povo, na sua revolta, põe o corpo sobre a cruz e entra,
pela força, na igreja até o altar de Santa Bárb
ara.

Assim, o simples relato jornalístico, que teve, na Alemanha,
um desfecho feliz, moldou essa temática tão brasileira e,
por isso mesmo, contrastante, pitoresca -
lídimo retrato da nossa realidade religiosa e sociocultural.

Publicado na revista
Santos Arte e Cultura.
Ano II Vol. 8 Bimestral -
março de 2008.

revistaartecultura@yahoo.com.br





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