fruto
da observância à veracidade registrada nas poucas biografias existentes.
Mas o que houve de mais marcante na série televisiva foi o enfoque
(quase panfletário) da redenção da mulher no cenário histórico do
Brasil.
Mostrando uma sociedade integralmente voltada aos interesses masculinos,
à supremacia do macho, à liberdade quase total deste em detrimento
da submissão institucionalizada da fêmea, na sua condição de objeto
servil; meramente produtora de condições de base para que o marido
e senhor - e só ele - pudesse exercer as funções que a sociedade
lhe cobrava.
Não
poderá também escapar à nossa análise o fato de ter sido a
escravidão o processo operativo da estrutura econômica brasileira
até fins do século XIX, consubstanciada numa legislação opressiva,
determinista, enfática quanto à vida da sociedade colonial.
Nela, cada personagem tinha um lugar predeterminado, indiscutivelmente
estabelecido e acatado sem qualquer direito a contestação
ou crítica por parte de quem quer que fosse.
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Desta
forma, cabia ao homem o direito à propriedade, às finanças, à mulher
e aos filhos.
Nesse cenário oprimente é que vai se inserir Chiquinha Gonzaga (nascida
a 17 de outubro de 1847): E ainda em condição piorada pela origem:
a mãe era pobre, mestiça e solteira. Chiquinha fora fruto de uma
paixão: a de um jovem militar cuja aventura, no entanto, prolongou-se
por toda a vida, sem, contudo, jamais chegar a legitimar-se.
O
jovem José Basileu Neves Gonzaga reconheceu a filha, embora
trigueirinha, o que, na época significaria condição social
inferior, dando-lhe um nome e a educação de uma boa moça de
sociedade; inclusive tendo o cuidado de propiciar-lhe o estudo
de um instrumento musical - o piano.
Mas a partir do momento em que a moça começa mostrar pendores
para a arte dos sons, enfaticamente desaprova essa ousadia,
esse desatino.
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Mais do que rápido, aos 16 anos, impõe-lhe o casamento
com um jovem também militar, de boa família. Este faz
eco ao sogro, desaprovando terminantemente qualquer
interesse mais sério por aquilo que era sinônimo de
boemia, de libertinagem, de desonestidade até. A música
não tinha lugar na vida de uma prendada senhora cuja
função era a de servir ao homem ao qual
jurara dedicação
total no altar do casamento.
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O
casamento fracassou.. E para espanto de toda a família, desespero
do marido e abatimento profundo do pai (que nem no leito de
morte perdoou a filha), Da. Francisca Gonzaga do Amaral abandonou
o marido. O escândalo estava armado: mulher que abandonava
o marido era considerada leviana, perdida, quase na condição
de prostituta.
Retornemos
agora aos capítulos da mini-série da Globo: o primeiro escândalo
é focalizado como meramente corriqueiro (nos dias de hoje).
Mas nos episódios que se seguem, a sucessão de surpresas correspondem
à quase absoluta realidade histórica: o caso com o engenheiro
João Batista de Carvalho, com o qual vem a ter o terceiro
filho, a breve duração desse relacionamento, a vida humilde
num cômodo barato de aluguel, o quase romance com o flautista
Joaquim Antônio da Silva Callado, a frenética paixão pelo
grande maestro Carlos Gomes (que a TV mostrou como efetivo
relacionamento, mas a verdadeira história não confirma este
fato) e finalmente a aceitação de um companheiro extremamente
jovem (ela com 52 anos, ele apenas com 16) com o qual viveu
por mais de 35 anos - até sua morte em 1935.
Mas, como observamos, a mini-série centrou sua atenção na
luta de uma mulher -pária da sociedade - que acreditava naquilo
que demoraria para acontecer: a igualdade dos sexos, a ascensão
em importância de quem acreditava que a mulher tinha os mesmos
direitos.
Isto é mostrado pela criação de personagens fictícias que
enfatizam e enriquecem a cena: uma vizinha submissa que sucumbe,
dançarinas indiferentes aos preconceitos, outra personagem
que abandona o marido opressor, incentivada pela protagonista
da mini-série, uma jovem explorada e prostituída por um meliante,
também auxiliada por Chiquinha Gonzaga.
O texto resgata e enaltece a força extraordinária de uma mulher
que, suplantando o sofrimento a que é submetida, impõe sua
vocação artística e a liberdade pessoal.
E
o que é mais importante, ressaltamos mais uma vez: a
veracidade dos fatos. Chiquinha Gonzaga foi abolicionista,
feminista, republicana, lutou pelos direitos autorais
dos artistas, fundando a Sociedade Brasileira de Autores
Teatrais (SBAT) existente até hoje existe. Comprou com
imenso sacrifício a alforria de um escravo, vendendo
na rua suas músicas. Foi no Brasil a primeira mulher
a escrever música para o teatro, a primeira a reger
uma orquestra, a primeira a escrever uma marcha carnavalesca
(Ó Abre Alas), e, com Antônio Callado, participou da
criação do gênero Choro.
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Mas
somente em 1883 conseguiu ver sua obra nos palcos (só os homens,
até então, poderiam escrever para o teatro): encomenda de
uma companhia portuguesa de operetas em turnê pelo Brasil.
E em 1885 atreveu-se a reger uma orquestra integrada por músicos
da banda da Polícia Militar do Rio de janeiro - era a primeira
vez que uma mulher empunhava uma batuta no Brasil.
Nada intimidava essa maravilhosa criatura que parece ter antecipado
a sua época; mas não: ela veio no momento certo; o seu pioneirismo
é abriu as portas para a redenção.
Valeu a pena ter havido uma Chiquinha Gonzaga e, para nós
músicos, é um orgulho saber que sua bandeira fora a nossa
arte.
Embora tenha aperfeiçoado seus estudos de piano com o insigne
compositor Artur Napoleão, a música de Chiquinha Gonzaga era
estritamente voltada para as tendências populares. Compôs
canções, choros, tangos, marchas, mas principalmente polcas
e valsas. Várias dessas obras conquistaram grande popularidade.
Estruturalmente são peças simples, curtas, priorizando a linha
melódica, geralmente em função da poesia - quase a totalidade
das obras destina-se ao canto com acompanhamento pianístico.
Ressalta,
no entanto, a beleza de muitas dessas linhas melódicas, algumas
delas primorosas, como é o caso de Lua Branca, que nos encantam,
nos levam a retê-las na memória e a repeti-las incansavelmente.
Ou, ainda, quanto ao ritmo característico do choro ou do tango,
tendo-se eternizado o famoso Corta-Jaca, legítimo documento
do nosso acervo popular, tão fascinante e envolvente.
Chiquinha
Gonzaga é hoje um dos nomes mais importantes da história da
nossa música. Pelo seu pioneirismo e pela beleza dos seus
trabalhos merece toda a nossa atenção e respeito. Inclusive
o dos jovens músicos que tem o dever de conhecer a vida e
a obra desta empolgante compositora patrícia.
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