Falar de João Dias Carrasqueira é dizer da verdadeira expressão do
artista e da tenacidade do músico brasileiro.
Como artista e como mestre, seu trabalho foi sempre ímpar.
Sua postura de músico e grande mestre sempre se impôs através do imenso
respeito que ele tinha pela verdade musical universal, tanto pela
música erudita como pela música popular, mormente a brasileira, ocupando
assim um lugar de destaque e de união no meio musical brasileiro.
João Dias Carrasqueira nasceu a 3 de abril de 1908 em Paranapiacana,
um pequeno paraíso incrustado na Serra do Mar, Estado de São Paulo.
De família de artistas, aos cinco anos imitava os pássaros de sua
cidade natal com uma pequena flauta de bambu. Recebeu as primeiras
lições do irmão José Maria Dias, flautista exímio, além de compositor
e poeta destacado.
Mudando-se para a cidade de São Paulo, precisamente para a Lapa, em
pouco tempo conquistou a amizade e o apreço dos companheiros de serestas
e chorinhos, o que lhe valeu o carinhoso apelido de "Canarinho da
Lapa".
Na mesma época conheceu Pixinguinha e os "Oito Batutas".
Conhecido de Zequinha de Abreu, acompanhava-o nas andanças pelo bairro,
quando ele oferecia aos pianista lapeanos suas novas partituras.
Depois foram as orquestras do cinema mudo - o Voluntários da Pátria,
o Alhambra, o América e o Royal - onde travou conhecimento com Américo
Jacomino (o famoso Canhoto) e outros artistas da época.
Na velha e pioneira rádio Educadora, tocou com Marcelo Tupinambá e
integrou um quarteto de flautas com José Maria Dias, Vicente de Lima
e Omar Gonçalves, apresentando-se nas rádios e em recitais de diversas
sociedade de cultura.
Participou do trio com Garoto e Aymoré non programas de música folclórica
e popular das rádios Cosmos e Cruzeiro do Sul, tocando com o cantor
Paraguassu entre outros famosos da época.
Integrou o Regional e as orquestras daquelas rádios, oportunidade
em que veio a conhecer e conviver com Catulo da Paixão Cearense; aí
também tocou com Gaó (Odemar Amaral Gurgel), Gino Alfonsi, Alberto
Marino e outros.
Em seguida integrou a orquestra da Rádio Record e foi solista do Conjunto
Regional de Armandinho Neves, prosseguindo as noitadas de choro, em
dueto com Pixinguinha ao saxofone, quando este se apresentava em São
Paulo.
Mas o Canarinho da Lapa precisava voar. No bairro participou da organização
de uma pequena orquestra de concertos e de mais outro grupo de instrumentistas
para apresentações de operetas, consagrando vários jovens de talento
que hoje fazem parte do cenário musical brasileiro.
Com a sociedade Amigos do Livro, organizou várias exposições de pintura,
num trabalho pioneiro de divulgação da cultura local.
Compôs algumas peças para trilhas sonoras de programas de televisão,
entre as quais a telenovela sobre o romance de Érico Veríssimo: "O
Tempo e o Vento", da televisão Excelsior de São Paulo.
Paralelamente ao trabalho nas rádios, divulgou obras do repertório
clássico para flauta, o que, na época não era muito comum. Junto à
Orquestra Sinfônica de Amadores de São Paulo, apresentou a obra completa
de Mozart para flauta, sob a regência do saudoso Mto. Leon Kaniefsky,
também participando das orquestras profissionais de São Paulo sob
a regência de Villa-Lobos, Edoardo de Guarnieri, Armando Belardi,
Simon Blech, Souza Lima, Eleazar de Carvalho, Camargo Guarnieri, entre
tantos outros.
Em 1954 recebeu, em concurso internacional, o primeiro lugar para
flauta da Orquestra Sinfônica do IV Centenário da cidade de São Paulo.
Participou dos movimentos da Sociedade Pró Música Brasileira, divulgando
obras inéditas para seu instrumento, dos compositores contemporâneos
e foi solista do Grupo Instrumental de São Paulo, dirigido pelo Mto.
Mário Ferraro.
Em 1966 recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes
(APCA) como Melhor Recitalista do Ano, pela interpretação do ciclo
integral das sonatas de Bach, com a cravistas Alda Hollnagel, além
da integral da obra para flauta e orquestra, do mesmo autor. Gravou
para o álbum "Músicas e Músicos de São Paulo" e para os selos Ricordi
Brasileira e Fermata.
Pertenceu ao corpo de professores da Orquestra Filarmônica de São
paulo.
Apresentou a série completas das obras para flauta de Camargo Guarnieri,
a convite do compositor, tendo o autor ao piano.
Mas o imenso trabalho de intérprete não o impediu de se dedicar ao
magistério.
Quando da dissolução da Orquestra Filarmônica de São Paulo, Carrasqueira
redobra o ofício didático e inicia uma maratona pelo interior de São
Paulo, reavivando o interesse entre os jovens pelo estudo da flauta
e, através dos cursos internacionais de música da Pró Arte (RJ), atinge
os jovens de todo o país.
"Professor Emérito" e "Medalha de Ouro" são algumas outorgas recebidas
pelo sucesso do trabalho realizado.
Idealizou a "Escola Brasileira da Arte da Flauta", obtendo excelente
resultados, o que lhe valeu o trofeu "Professor do Ano".
Fundou o "Clube dos Flautistas de São Paulo", reunindo cerca de quarenta
alunos - uma verdadeira orquestra de flautas - levando ao repertório
já vasto, arranjos da própria autoria.
Muitos de seus alunos desenvolveram trabalho artístico em carreira
internacional, nos Estados Unidos e Europa.
Outros lecionam e tocam pelo Brasil afora, nas orquestras, como solistas,
cameristas, divulgando seu instrumento numa verdadeira "flautosofia",
como costumava dizer o mestre Carrasqueira.
A fraternidade humana através da linguagem musical que dá ao nosso
chorinho é a mesma dignidade encontrada nas obras de Bach ou de Mozart.
A obra de João Dias Carrasqueira enriquece o repertório flautístico
para além das composições didáticas. Muito vasta, compreende solos,
duos, trios, quartetos, música de câmera com violão, voz e piano,
ainda não completamente editada.
Aylton Escobar