Eduardo Escalante
Nota: Além das inúmeras caricaturas e crônicas,
Belmonte ilustrou as obras infantis de Monteiro Lobato
e escreveu três livros: No
tempo dos Bandeirantes,
Trajes e costumes da América Latina e Brasil de outrora.

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA





Belmonte (pseudônimo de Benedito Carneiro Bastos Barreto)
nasceu em São Paulo em 1896, falecendo prematuramente,
vítima de tuberculose, em 1947.
Desenhista, pintor, caricaturista, historiador e cronista,
marcou sua presença pela criação de uma personagem
que bem retratava a política e a sociedade da sua época:
o Juca Pato.



Hoje, esta figura dá nome e imagem ao cobiçado
prêmio Intelectual do Ano.



Em 1937, com a implantação do chamado Estado Novo,
a ditadura Vargas proibiu Belmonte de apregoar
as desmazelas
do novo regime.
Teve, então, de voltar suas vistas para o panorama internaciona
l.
Foi assim que, durante a Segunda Guerra Mundial,
suas charges e caricaturas, publicadas em jornais e revistas,
atravessaram as fronteiras e chegaram inclusive às mãos
dos homens do nazismo - aos quais nada agradou.

No artigo "Um traço de Ironia", o jornalista e escritor
Luís Pimentel (Revista História Viva, n° 61 - ano V. p.71),
registra que ..."durante a Segunda Guerra Mundial (Belmonte)
publicou charges que correram o mundo e teriam despertado
a ira do ministro da propaganda nazista.
Diante de um desenho seu, ridicularizando os alemães, Goebbels
teria desabafado: esse artista deve ter sido pago pelos aliados
ingleses e norte-americanos
".



Salomé (bico de pena).
Foi modelo a própria esposa do autor

Ao chegarmos a São Paulo, em 1949, travamos amizade
com a família França.
Em especial dona Sílvia, que de longa data freqüentava a
casa da viúva Belmonte e fez logo questão de apresenta-nos a ela.
Num pequeno apartamento no bairro das Perdizes,
morava dona Dalila, rodeada de fortes recordações
e de todos os trabalhos originais do marido: desenhos,
revistas e também alguns quadros - pinturas a óleo ou bico de pena.
Várias vezes estivemos lá.
E numa dessas ocasiões ela citou o fato acima relatado,
mostrando um quadro: uma pintura a óleo sobre madeira
medindo 40 x 50 cm., na qual apareciam Goebbels e Hitler.
Embora eu fosse muito novo, tinha vivo interesse por todo
aquele "museu" que era a casa da dona Dalila.

Os anos passaram. Na década de noventa recebi
um telefonema da dona Sílvia dizendo que a viúva Belmonte,
na época, quis presenteá-la com duas gravuras
do seu saudoso marido.

Sabendo do meu interesse por tudo o que se refere à cultura, achava dona Sílvia que aquelas
obras deveriam vir às minhas mãos.
Sem demora fui à sua casa. Do interior de um guarda-roupa saiu o original de Belmonte.
Qual não foi meu espanto ao ver, tantos anos depois, nada mais, nada menos do que
a charge a Goebbels e Hitler..
.
Estava nas minhas mãos um fragmento da história - o estopim da explosão
de ira do todo-poderoso ministro da propagando nazista e, para Belmonte,
um monumental capítulo da sua biografia.


Goebbels e Hitler (óleo sobre madeira)

 

 

 

 

 

 

 

Eduardo Escalante
Compositor, regente,
folclorista, professor
universitário.



Matéria publicada na revista
Santos Arte e Cultura
Ano III Volume 14 Bimestral
- março de 2009






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