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Em 1994 ocorreu um fato, no mínimo, curioso.
Se a redescoberta é o esporte do século que finda, um achado
assombroso deu o que falar: descobriram o que já existia, é
claro, há muito, mas muito tempo: o canto gregoriano...
Embora
nas prateleiras das lojas de discos sempre existissem muitas
e excelentes gravações, a "recente descoberta" virou coqueluche.
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A onda veio da
Espanha: os monges beneditinos de São Domingo de Silos, uma pacata
região ibérica, resolveram virar artistas e gravar seus antigos cantos
(gregorianos), o que fizeram com toda devoção.
O santo era forte e começou-se a faturar alto: só na Espanha, 320
mil cópias!
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E depois
o mundo: os discos se multiplicaram dia a dia.
Só que os novos "beatles" (de batina), perderam o sossego: enxurradas
de turistas começaram a chegar diariamente para fotografar,
entrevistar, autografar os novos ídolos.
Tudo terminou quando o circunspecto abade Clemente Serna fechou
as portas e proibiu definitivamente as visitas ao mosteiro.
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Terminou? Não!
Em menos de um ano, como sempre tem acontecido por cá, a inveja dos
colegas brasileiros, também beneditinos, do estado do Paraná, encrespou:
resolveram eles aproveitar a dica e atacar.
Mas à moda cabocla: gravar cantos gregorianos... em português.
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Com
certeza, o fato oculto e marcante, no Brasil, fora a próspera
e crescente invenção de um tal Macedo, que, para realizar seu
intento, assumiu logo o pomposo galardão de "bispo".
Referimo-nos à denominada Igreja Universal do Reino de Deus.
Atraindo rapidamente milhares e milhares de pessoas carentes de
benefícios - que só poderiam provir de graças divinas - começou
nomear pastores e bispos, alugar e depois adquirir barracões,
se espalhar pelo Brasil e depois pelos países vizinhos, arrebanhando
as bênçãos pecuniárias que chegavam aos borbotões.
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Pese o
fato de muita gente ter se sentido beneficiada, o fluxo crescente de
fiéis, aglomerados por uma eficiente técnica de marketing, foi
preocupando, cada vez mais, os religiosos das outras correntes cristãs.
Principalmente porque movimentos semelhantes, criados aqui e acolá,
não alcançavam os resultados daquele.
Eis, então, que, valendo-se dos sempre bem sucedidos processos aglutinadores,
a Igreja Católica "reavivou" o que se denominava Renovação
Carismática.
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O
processo reverteu: incontáveis fiéis, que haviam aderido à mídia
do bispo Macedo ou a outros movimentos menos felizes, retornaram
ao seio da Igreja Católica Apostólica Romana.
E com grande entusiasmo, porque um novo "superstar" estava nascendo:
o padre Marcelo Rossi, cuja virtude é, sem dúvida, a de
ser humilde, simpático, jovem, autêntico e, corroborando o movimento,
carismático.
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Carisma
esse com alguma semelhança - física inclusive - à do dr. Spock do seriado
"Jornada nas Estrelas". A arma da sua estratégia é a música.
Música popular, de fácil assimilação, otimista, acompanhada de uma
coreografia embaladora, num vaivém de cantiga de ninar.
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Mas
também no seio da Igreja nasceu a controvérsia: a 37ª Assembléia
Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, em meados
do ano passado, a portas fechadas, abordou a problemática que
o sacerdote estava criando: a missa transformara-se num mega espetáculo,
semelhante àqueles dos roqueiros.
Só que, reunindo, três vezes por semana, um média 30.000 fiéis,
cifra essa que cresce aos domingos em, pelo menos, 30%, inclusive
com a chegada de gente de outros estados.
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A TV não
tardou em aderir ao fenômeno e, mais ainda, a gravadora PoliGram, que
já passou dos 3 milhões de discos vendidos.
Diz Romeo Graciano, da Revista Planeta (nº 321, jul.99) que "...ele
é o protótipo das tendências do novo presbítero nos dias de hoje - tem
desenvoltura para lidar com a mídia e traquejo de animador de auditório,
atraindo multidões às igrejas e santuários."
De fato, o fenômeno ocorre em direção inversa àquela dos sacerdotes
católicos do período da nossa colonização, até meados do século XX,
que combatiam, com unhas e dentes, o arraigado catolicismo popular da
nossa cultura autóctone: a própria Igreja, agora na pessoa do Pe. Marcelo,
percebeu que a religiosidade popular, pelo contrário, é um meio
absolutamente seguro para se propagar a fé cristã.
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À
semelhança da Igreja Universal (no Brasil dia a dia minguando),
que usava a sistemática da bênção de objetos, dinheiro e tudo
o mais, Graciano observou que "...a quantidade de carteiras
de trabalho erguidas para as bênçãos do padre atesta para o desespero
provocado pela escalada do desemprego, mostra o consolo da esperança
de receber auxílio divino para conseguir o que a realidade nega."
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Se a Renovação
Carismática Católica busca tornar os cultos mais atraentes, isto deve-se,
sem dúvida, não só à força dos jovens padres, mas "...as músicas,
os cantos de louvor, as bandas, as danças, a evangelização feita com
alegria e as atividades que aproximam a Igreja da sua comunidade,
constituem aspectos essenciais desse processo", afirma o referido
autor.
Parece-nos, então, que aquilo que é patrimônio da ciência - a ainda
titubeante Musicoterapia - encontraria aqui a prova da eficiência
do som organizado e dirigido para cumprir com a nobre e almejada missão
de "curar" a mente humana.
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No
caso, pela descoberta de um grande fluxo de espiritualidade proveniente
do desabrochar de um estado de latente animosidade e euforia.
A felicidade cura, a alegria ajuda a vencer, é o caminho para
viver com fé, promulga o Movimento Carismático.
Além do canto, sugere-se a oração em profusão: à Santíssima Trindade,
ao Espírito Santo, a Jesus, à Virgem Maria.
E há, paralelamente, ainda ações sociais em asilos e orfanatos,
ajuda a necessitados, dependentes de drogas e aidéticos.
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Por sua vez, o
clero, dividido, nem sempre, como dizíamos, aprova os resultados provenientes
do conceitos de que "a voz do povo é a voz de Deus".
O Pe. Marcelo se defende afirmando: "O estudo e a erudição esfriam
o movimento. Aliás, não dá para conciliar a aeróbica (refere-se à
ginástica espiritual que acompanha os cantos) com o estudo", registra
a revista Planeta.
E quanto ao recolhimento meditativo do rito tradicional?
Sem falarmos nos sermões, nem sempre apropriados, dos sacerdotes mais
velhos (sem nenhum eco por parte os fiéis, que ouvem e nada assimilam),
indagamos: a missa do movimento carismático, com toda a sua dinâmica
musical e coreográfica, seria suficiente para se lograr os sufrágios
da fé?
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Ficaria
definitivamente banida, do rito católico, a música litúrgica que
os grandes mestres da música nos legaram, para dar lugar, definitiva
e exclusivamente a uma cantoria eufórica (e pobre), mas de âmbito
e assimilação popular?
Há espaço, nessa renovação, para um equilíbrio - o que é
desejável - entre os aspectos diversos dessas manifestações
musicais?
Ou a Igreja, gradativamente adotará, como definitiva, a técnica
- do legitimamente bem intencionado - Pe. Marcelo?
O tempo é que dirá. Enquanto isso, oremos e cantemos...
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